Da Margem ao Centro – O caminho para a inclusão

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à primeira segunda do mês

Marias

Leopoldina Pina de Almeida

Foi no último sábado que se realizou o primeiro Pride de Beja e o EntreMarias foi orgulhosamente convidado a participar. Digo orgulhosamente, porque para além de ser o que realmente sinto, sei que esta é uma palavra bastante significativa para muit@s. Dou os meus parabéns à Associação Arruaça, pelo sucesso da iniciativa. Foi notório para tod@s os presentes que era um evento urgente, pela adesão que teve por parte de tantas e tão diferentes pessoas da cidade. E de muitas outras, que querendo participar não o conseguiram fazer, por a lotação ter esgotado logo nos primeiros dias da divulgação. Nós estivemos lá, a dinamizar mais um EntreMarias, com a Alexandra, a Helena, a Isabel, o João, a Manuela, a Raquel, a Rita, a Sónia, a Vera, e tant@s outr@s nomes diferentes, como diferentes eram as pessoas que estavam na sala. Como diferentes foram as motivações que nos levaram até ali naquele momento.

Acompanho estas já 19 edições do EntreMarias com surpresa. Começou por ser um local de conforto, despretensioso e fluído, com o objetivo do empoderamento do feminino a partir do aqui e agora, das que estamos e que vamos falando umas com as outras enquanto cuidamos d@s moç@s, cozinhamos ou limpamos a casa, como sempre aconteceu com as mulheres das nossas famílias. Pouco a pouco começamos a sair da zona de conforto, a tomar posições, a abarcar outras realidades. É tão importante arriscarmos e pormo-nos a jeito. Não ter medo de falar, não ter medo de ouvir. Dar sempre um passo em frente no caminho da Liberdade que, como as mulheres bem sabem, não é uma doação, mas exige uma permanente busca.

Quais as nossas identidades? Que palavras foram surgindo para nos adaptarmos a novas realidades? Quais os principais desafios que ainda se colocam à inclusão? Foram estas as perguntas iniciais que desta vez propusemos, não para obter respostas imediatas, mas para criar em conjunto um espaço de (des)construção das questões, o surgimento de muitas outras e principalmente provocar o autoquestionamento sobre temas que dizem respeito a tod@s nós.

Fiquei muito feliz por ver uma sala plena de adolescentes, com questões muito próprias de quem sente uma necessidade urgente de se identificar com alguma coisa, de sair do isolamento sufocante que uma cidade desta dimensão necessariamente provoca a quem se sente não normativo. Fiquei muito feliz por ver tanta diversidade, de géneros, de idades, de orientações, de motivações, a tentar perceber tanta diferença de abordagens, a fazer um esforço para ser ouvid@ desde o seu lugar de fala e a tentar perceber o que @s outr@s queriam dizer. Fiquei muito feliz por sentir que o tempo foi curto para tanta curiosidade, que tod@s tinham mais para dizer, que isto foi apenas o começo de um caminho quase todo por fazer. Fiquei muito feliz por ter saído com mais questões do que aquelas com que tinha entrado, por muitas pessoas terem sentido necessidade de continuar a falar do que se tinha passado, com aquele desconforto bom que nos obriga a continuar à procura, a questionar-nos, a buscar o tal Ser Mais, de que nos falava Paulo Freire. O empoderamento, não é uma visão individualista, mas uma ferramenta coletiva que nos permite quebrar monoculturas a todos os níveis. Já basta a monocultura paisagística que todos os dias nos entra pelas casas adentro sem pedir licença e mancha com a sua monotonia opressora toda a paisagem rural.

Escrevo a partir do meu lugar de fala, diferente do de todas as outras pessoas que estiveram presentes. Um lugar em permanente transformação, mas que também carrega consigo todo um percurso pessoal, profissional, cultural, social, linguístico. Gostaria de Ser Mais um lugar de escuta, num tema tão sensível como este, em que aprendo todos os dias não só com @s Ls, Gs, Bs, Ts, Is, As e +, mas com todas as outras letras do abecedário.

No aqui e agora em que me situo, não posso de forma nenhum ser falsamente neutra nestes tempos de sectarismo, em que temos que responder de forma radical, no sentido de ir à raiz das questões –  O radical, comprometido com a libertação de tod@s que não se deixa prender em círculos de segurança, nos quais aprisione também a realidade (1). Tod@s somos seres inacabados, em permanente construção. E já que demos este pequeno passo, porque não continuar o passeio em conjunto?

(1) Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”

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