“Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador…”

174 blog - comodismo

idos de julho

Sónia Calvário

Periodicamente temos a sensação de que as coisas acontecem.

As esperadas obras aparecem, a justiça dá sinais de revitalização e são anunciadas medidas e projetos que consideramos fulcrais. Imputamos a dinâmica invariavelmente às eleições, e, na verdade, as legislativas e as autárquicas, as que contam com maior participação do eleitorado, decorrem a cada dois anos. Este é mais um deles e, por isso, não se estranham os “casos e casinhos” que vão surgindo, e o avolumar das obras que proliferam nas sedes de concelho por esse país fora. A pandemia serve agora de justificação para os atrasos e para o que não se fez nos últimos anos e para o não cumprimento de algumas promessas eleitorais.

Periodicamente temos a sensação de que somos gozados.

Assistimos, em julho, à detenção de Luís Filipe Vieira e alegados comparsas, que ficaram sujeitos a medidas de coação, entre as quais ao pagamento de cauções, nomeadamente de 3 milhões de euros para o ex-presidente do Sport Lisboa e Benfica. O mesmo Juiz, Carlos Alexandre, já tinha aplicado a medida de 5 milhões ao, ainda, Comendador Joe Berardo, qualificado como “lógico” pelo seu advogado, mas que, entretanto, já anunciou de que irá recorrer por inobservância de requisitos legais. Estaremos, certamente, lembrados das posturas destes, e de outros, nas comissões parlamentares de inquérito, com deploráveis amnésias, afirmações de que nada devem e manifestações de desdém para com os deputados da Nação. E, nesta sequência, é também de notar a afronta de Ricardo Salgado a passear-se, sem máscara, pela Sardenha, em Itália, enquanto faltava às sessões de julgamento a coberto da norma excecional e temporária que permite aos arguidos, com mais de 70 anos, requererem dispensa em virtude dos riscos do coronavírus associados à idade.

Finalmente, e porque falamos de falta de vergonha, é de realçar a continuada postura inapropriada do MAI, Eduardo Cabrita, que, apesar de, parafraseando o primeiro-ministro,  tantos “casinhos”, continua como se nada fosse, de pedra e cal, no cargo para o qual foi nomeado.

Periodicamente temos a sensação de que somos (in)dispensáveis.

No passado dia 28, foi publicado o relatório preliminar dos Censos 2021, que dá conta de uma redução da população residente em Portugal de 2%, e em Beja de 6,8%, ligeiramente abaixo da média do Alentejo, que se situa nos 6,9%, em comparação com o último recenseamento geral, de há dez anos. E confirma a tendência: vivemos concentrados nas cidades, no litoral, principalmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, e há mais pessoas do sexo feminino (52%) do que do masculino. (48%).

Enquanto Barrancos foi o município português com maior decréscimo da população (21,8%), Odemira lidera os que aumentaram os seus residentes, com mais 3457 pessoas (13,3%), das quais 3155 são do sexo masculino, a que não será alheio o fluxo migratório, composto essencialmente por homens que trabalham no setor agrícola.

É também no Alentejo que se situam os outros três municípios de Portugal Continental, num total de cinco (o outro é Monchique), com mais homens do que mulheres: Ferreira do Alentejo, Mourão e Grândola (este já pertencia, em 2011, ao grupo minoritário dos “mais masculinos”, vendo agora aumentada a diferença relativamente às mulheres residentes).

Conclui-se que o interior do país está em risco “de não retorno no despovoamento” e a Ministra da Coesão Territorial, preocupada com a chamada bazuca, avisa que vamos precisar de imigrantes, pois “Para recuperarmos a economia do país, e com o investimento que planeamos fazer, grande parte desse investimento tem de ser feito por pessoas que não temos”.

Os investimentos previstos para Beja são mínimos e ficam muitíssimo aquém do necessário para contrariar a tendência. O pouco peso que temos na tomada de decisão de Lisboa e a reduzida capacidade reivindicativa relegará o nosso distrito e o Baixo Alentejo ao paraíso dos que veem aqui um refúgio para fugir à azáfama das grandes cidades.

As palavras de Florbela Espanca, quando se refere ao Alentejo, continuam a fazer sentido, ainda que as vá interpretando de outra forma: “tudo é tranquilo, e casto, e sonhador…”.

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