(Des)confinamentos

e agora eles

Rui Oscar da Silva Teixeira

Há um adágio que determina que qualquer facto ou episódio da vida detém um lado bom e um lado mau que se equilibram. Não havendo regra sem excepção, assim reza outro adagio, definamos já como excepção os álbuns dos Pink Floyd que, toda a gente o sabe, têm os dois lados igualmente bons e passemos ao que realmente interessa.

O período pandémico que vivemos desde o alvor do ano da desgraça de vinte vinte trouxe alterações significativas à pacata vida dos descendentes de Viriato (e, a bem dizer, de todos os outros povos que por aqui se foram, a tempos, instalando), umas mais meritórias que outras que, para dizer a verdade, teríamos todos de bom grado dispensado. Pois no modesto entender aqui do escriba, um dos melhores efeitos colaterais da pandemia foi a explosão de esplanadas. Como entender, aliás, que um rincão de terra, abençoado com um clima verdadeiramente propício, tenha carecido de tamanha crise para descobrir tal oportunidade? Este vosso amigo, gente de pouca Fé, dá por si acalentando a Esperança que a instituição esplanada possa sobreviver e afirmar-se no período pós-pandémico.

No meio de um caos de solidões partilhadas em pequenas e confinadas ilhas domésticas, rodeadas por imenso deserto de gente e de vida, as esplanadas assumiram-se como oásis de Humanidade. De repente, demos por nós gozando as delícias de um café decente, sentindo na pele e na alma a suave carícia do Sol e da brisa benfazeja. Ou até da chuva, para quem é adepto de emoções mais radicais.

Numa Era marcada pelo recrudescimento da guerra de trincheiras, considerada obsoleta desde que a Wehrmacht, em 1939, demonstrou a sua inutilidade face à nova estratégia a que se viria a chamar de Blitzkrieg, mas renascida em pleno Séc. XXI por obra e graça das novas ferramentas de informação ou, se preferirem, as redes sociais, dei por mim pensando que a disseminação de esplanadas um pouco por todas as urbes poderia constituir a ponte que faltava para se poder voltar ao diálogo sem ter que se ser pró ou contra. Não poderia estar mais enganado.

Na impossibilidade de se dirigirem ao número 22 da António Maria Cardoso ou qualquer uma das suas sucursais para, a troco de um hipotético  benefício num concurso à função pública, denunciar conhecidos, vizinhos e, até, familiares, “moralistas” e delatores profissionais, sordidamente escondidos atrás de um teclado, encontram nas redes sociais o terreno fértil para esticar o dedo e denunciar, desta feita a mera existência de esplanadas, desfiando um rol de irregularidades, inconvenientes, transtornos e o potencial perigo que a sua mera existência e a das pessoas inconscientes que as frequentam, se afigurarem como potenciais “responsáveis pelas sucessivas vagas de infectados”.

O problema é que esta gente existe e vota. O que talvez explique muita coisa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s