Yo No Creo Pero*

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carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Descobri recentemente que herdei do meu pai algo que, não podendo ser designado por talento, constitui uma dificuldade acrescida com que nascemos.

Há muitos anos atrás a minha mãe tinha um relógio que eu invejava e que ela prometeu oferecer-me quando fizesse 16 anos. Encarei esta decisão materna da melhor forma possível: assumi que, tal como eu, a minha mãe tinha fé de que a tendência para o acidente e destruição de tudo quanto é delicado e frágil em meu redor, fosse gradualmente desaparecendo. Enganámo-nos as duas. Anos passaram, nunca mais ninguém se lembrou do relógio até que ele reapareceu numa gaveta e a minha mãe entregou-mo, cumprindo a promessa com mais de 15 anos de atraso. Eu fiquei verdadeiramente feliz, mas essa felicidade vinha com um preço: pilha e bracelete novas.

Consegui procrastinar a troca de pilha e bracelete até há duas ou três semanas atrás e ficámos muito surpreendidas, a minha mãe e eu, pelo facto de o relógio ainda funcionar na perfeição. Mas eis senão quando, uma sombra se abate sobre o sonho: apercebo-me de que a cada 30/40 minutos de uso, o relógio atrasava-se cerca de 15. Eu que sou de letras, mas com um espírito científico notável, atirei-me de cabeça a uma experiência: acertei o relógio e deixei-o em cima da mesa de um dia para o outro. Não se atrasou. Volto a colocá-lo: atrasado. Volto a fazer a experiência. Volta a funcionar brilhantemente.

Daqui se conclui que, tal como o meu ascendente paterno, possuo um magnetismo bizarro e certamente diabólico que me impede de usar relógio de pulso, pelo menos aquele relógio em particular.

Mas que ninguém diga que não há equilíbrio neste universo, que o provérbio “depois da tempestade vem a bonança” não se aplica a este mundo que tanto nos manda abaixo como nos eleva!

Eu sou uma pessoa que sempre acreditou possuir talento. Sempre desejei que fossem muitos, mas aos 41 anos de idade e sem vislumbrar nada que me faça destacar do comum dos mortais, a revelação de um só talento bastaria para que me sentisse realizada. A esta minha crença ajuda a tendência para acreditar em milagres, ainda que nunca tenha visto nenhum, mas nisto sou como os castelhanos com as bruxas, “que las hay, hay”. Se a pessoa negar à partida a possibilidade de um milagre, estou convencida, que só por pirraça de quem os gere e distribui, nunca lhe acontecerá um. Mas dizia eu que uma vez que acredito em milagres, só faria sentido acreditar que o meu talento se revelaria. Seria mais tarde que cedo, estava mais que visto, mas ainda assim, quando o fizesse, seria com estrondo.

E foi o que aconteceu hoje num supermercado às 16h30 (a hora é aproximada, porque como ficou explicado, não me adianta nada usar relógio).

Com um saquinho de papel numa mão e uma pinça de plástico na outra, dirigi-me a uma banca de acrílico, composta por um monte de caixas, todas elas cheias de gomas. Quando terminei tomei o peso do saco. Resolvi meter mais umas quantas que me pareciam as melhores de todas. Voltei a tomar o peso com a mão e fui para a caixa.

Depois de pagar, consulto o talão: 200 gramas certinhos!

E ora aí está. Aos 41 anos o meu talento revelado: acertar no peso das coisas. Sei que parece muito pouco ao pé de outros talentos que outras pessoas têm, mas nem todos nascemos para ser fenomenais, não é?

Não estou muito certa da utilidade que posso dar a este talento sobrenatural. A primeira ideia que tive foi trabalhar numa frutaria, por exemplo. Mas talvez o talento só se revele em coisas miúdas e não em melancias ou ananases.

Ainda é muito cedo para saber. O meu notável espírito científico está inquieto e sente a necessidade de mais experiências para garantir a veracidade do fenómeno. E tenciono fazê-las. E tomar notas rigorosas dos resultados. Mas estou certa que é desta que vislumbro o meu caminho e a verdadeira razão para ter vindo a este mundo.

Para usar relógio, está visto que não foi.

*título de uma música da fenomenal Rita Lee, mulher de talento

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