a senhora que se segue: Celina Nobre

Maria Celina Nobre nasceu em Lisboa, em 1966, e viveu a sua infância no concelho de Ourique. O ensino secundário foi feito em Beja e o universitário em Évora, onde se licenciou em Sociologia, contrariando a família que a “queria advogada”.  Foi professora e formadora. Abraçou a causa pública, nomeadamente através do exercício do cargo de Presidente de Junta da freguesia de Casével, eleita numa lista independente. É mãe da Kika, que tem 19 anos. Gosta de pessoas e das potencialidades das relações com elas. Diz-se “sempre em construção”.

Celina Nobre assinará, a partir de dezembro, a rubrica “Maria Campaniça” e é a Senhora que se segue no Expoente M.

logoMTem a vida que idealizava?

Partindo do pressuposto que idealizar é projectar com fantasia, ao longo das diferentes fases da minha vida, fui, como qualquer ser humano em evolução e na construção de si próprio, idealizando vários cenários possíveis para a minha vida e que naturalmente foram mudando, à medida que fui crescendo. A minha vida real foi sempre construída com base em princípios sólidos, que felizmente me têm acompanhado ao longo do caminho, mas nalgumas fases, nem sempre os resultados práticos dos mesmos foram coincidentes com a projeção ideal, muito em resultado das opções tomadas, cujas consequências por vezes não equacionamos. Por imaturidade, inconsciência, ou até por comodismo. Agora aos 55 anos de idade, mais consciente e consistente do que sou e do que quero, posso afirmar, com a tranquilidade necessária, que vivo em paz com o passado, que no presente, todos os dias, faço coisas que me dão a solidez e a coerência necessárias, para viver bem comigo e maioritariamente com os outros e acredito que o futuro poderá e deverá ser uma construção, cujo meu contributo, sem mudar o mundo, poderá fazer a diferença. É essa motivação intrínseca que me mobiliza e me satisfaz. Resta-me assim, hoje, a sensatez de admitir que a vida nunca me deu tudo o que ansiava, mas deu-me absolutamente tudo o que de mais relevante existe. Daí advém a minha gratidão. Quanto ao resto, hei-de construir.

logoMA intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos? No seu caso como a pratica?

Vivemos em sociedade. Nascemos e crescemos com os outros. A eles devemos uma boa parte do que somos, fruto da cultura que partilhamos. Assim sendo, intervir e participar na sociedade, mais do que uma preocupação individual, transforma-se num imperativo de construção coletiva. Lamentavelmente pouco assumido – convenhamos – por muitos. Habituámo-nos a delegar, através da democracia representativa, para quase sempre reclamar, descurando a importância do papel individual para esse projeto comum. No meu caso concreto e muito em resultado duma educação promotora da intervenção e da preocupação com causas comuns, tenho procurado, à minha escala, contribuir para a melhoria do bem‑estar comum. Foi imbuída desse espírito que fui presidente da minha junta de freguesia, eleita através duma lista de cidadãos independentes e que durante 4 anos planeei, executei, negociei uma viragem na minha terra, quer através da construção de estruturas físicas, quer através de iniciativas mobilizadoras da comunidade. Enquanto presidente de junta e por inerência de funções participei na administração da fundação Joaquim António Franco e seus pais tentando com a minha participação revitalizar e enquadrar, na atualidade, as funções desta IPSSS. Com o meu contributo nasceu uma empresa de Inserção – A Casévelimpa – que empregou mulheres DLD e contribuiu para a diversificação das fontes de receita da instituição. Participei na realização das candidaturas que sustentaram a criação doutras valências na mesma instituição: A UCC e o lar. Fui chefe de gabinete do presidente da Câmara de Castro Verde, na altura Fernando Caeiros, e no âmbito da coordenação do gabinete de educação e acção social, coordenei a instalação da CPCJ local, implementámos a escola a tempo inteiro e as refeições escolares. Com as associações locais desenvolvemos protocolos de parceria conducentes à instalação de valências absolutamente fundamentais à qualidade de vida das populações nas freguesias rurais. Já em Beja fui candidata à CMB pelo Movimento Independente “Por Beja com todos”, apoiante da candidatura à Presidência da República de Sampaio da Nóvoa, sendo responsável pela elaboração de textos para a comunicação social. Sequencialmente pertenci ao Conselho fiscal da Associação para a Defesa do Património Cultural de Beja. Fui representante no conselho geral dos pais e encarregados de educação na Escola da minha filha, na escola de Santiago Maior. Procurando abstrair-me dos contextos mais formais, em que participei, o mais importante que tenho feito para a consolidação do princípio da cidadania é educar a minha filha e, todos os dias, no meu trabalho praticar os valores que me guiam: Justiça, igualdade e solidariedade.

logoMComo vê a conciliação, atualmente, da vida profissional e familiar/social? Na sua vida existe esse equilíbrio?

Difícil. Conciliar a dimensão pessoal com a familiar não tem sido, ao longo dos tempos, tarefa fácil, em particular a partir do momento em que a mulher ingressa no mercado de trabalho, mantendo, religiosamente, o epíteto de “fada do lar”. Com a eclosão da pandemia a vida não ficou mais fácil. As mulheres foram as que mais facilmente ficaram desempregadas, ou as que continuaram a trabalhar mantiveram em espaços exíguos exigências máximas: teletrabalhar, apoiar filhos em telescola, cozinhar, assegurando os pilares básicos da família, entre outros.

Na minha vida esse equilíbrio também tem dificuldade em existir. Estou agora a procurá-lo para me refundar como gente. Vivenciei, na primeira pessoa, as exigências duma coordenação à distância de 2 equipas separadas geograficamente, alterei horários de refeições, deixei os haveres minguarem no frigorífico, ericei-me com a filha, que assistindo a aulas à distância dizia que a minha voz a perturbava, da mesma forma que me aborrecia que ela assistisse às aulas deitada.

Depois de diagnosticada com um transtorno de ansiedade e devidamente medicada, estou agora a olhar para dentro. À medida que o faço vou arrumando as minhas prioridades e criando espaço para o essencial. Acredito que quanto mais formos capazes de conciliar as diferentes dimensões da nossa existência, mais felizes seremos. Afinal, ninguém é apenas uma coisa. Por muito bom que seja na mesma.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

Não. Sou uma felizarda. Ou uma tomatuda. Apesar dalguns episódios esporádicos machistas, nunca, em qualquer circunstância me senti beneficiada ou prejudicada por ser mulher. Modéstia à parte, todos os dias faço questão de demonstrar que sou pessoa. Felizmente tenho obtido reciprocidade. Quanto me faltar, estou disposta a lutar por ela.

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade? Como podem as mulheres contribuir para essa concretização?

A primeira premissa para que as mulheres possam ver garantido o seu direito de igualdade é sentirem-se iguais, sendo capazes de potenciar as suas diferenças, apenas enquanto seres humanos e fazendo valer a sua igualdade em todas as circunstâncias. Todos os dias assisto preocupada ao encantamento de muitas mulheres verbalizando a forma como os seus homens as ajudam. Enguiço-me com as quotas, como se participar decorresse de normativos que obrigam à paridade de género, esquecendo que a não há nada mais paritário que a conceção global de humano.

logoMQual é o seu maior sonho?

Os meus sonhos são todos oníricos. É por isso que entre o estado de consciência alterada, dormindo, acordada, ou apenas perspetivando futuros mantenho sonhos como utopias. O mais significativo é o duma sociedade mais justa. Focada nas pessoas. Mais felizes. Mais assente nos ritmos da natureza. Com menos materialidades. Mais espiritualidade. E onde todos possam contribuir para este desiderato comum. Sem discriminações de pele, de religião, de origem, de raça. É sob a forma deste mundo perfeito que posso sonhar ser cada vez mais eu. E sendo eu garantidamente farei mais alguma coisa que possa reverter para muitos. Afinal, sozinhos somos muito pouco. Quase nada.

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