Karma´s a bitch

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carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Calhou bem ser esta semana que escrevo aqui. Preciso de desabafar porque foi uma semana peculiar. Em jeito de resumo: terça-feira fiquei refém na minha própria casa. Na sexta fui agredida por uma garrafa de Coca-Cola. Sábado estive nas urgências do hospital e domingo não aconteceu absolutamente nada digno de nota.

Ora, comecemos pelo início: terça feira. Acordei bem cedo, fui buscar lenha e acendi o lume. Arrumei a cozinha e a sala, preparei tudo para começar a trabalhar assim que despachasse os recados que tinha para fazer na rua. Quando me preparava para sair, o drama instalou-se: onde estão as chaves? Falamos de um molho jeitoso: tem as chaves de casa, as da casa da minha avó, dos cadeados da cerca que metemos nas escadas (e que impede a dona M de subir) e das botijas de gás (que impede a dona M de roubar as botijas).

Durante cerca de 4 horas virei a casa do avesso. Quando digo que vi em todo o lado, incluo o  cesto da roupa suja, a máquina de lavar, o frigorífico, no meio da roupa da cama… Lembrava-me que a última vez que tinha pegado nas chaves, tinha sido para ir buscar a lenha. Fui ao pátio, vasculhei o caminho todo, tirei a lenha toda do sítio e voltei a colocar. Duas vezes.

A única resposta possível era aterradora: dona M tinha encontrado as chaves. Respirei fundo em jeito de preparação para o confronto. Não precisei de bater à porta, porque quando o ia fazer vi-a parada por detrás do vidro, de braços cruzados e com aquele ar mumificado. Jurou pela alminha de não sei quem que não tinha visto as chaves. Mais convencida fiquei que as tinha. Finalmente, ela tinha o poder! Fiz a única coisa que podia: chamei o serralheiro e pedi-lhe para mudar fechadura.

Quarta-feira amanheceu e quando limpava a salamandra, ouvi um barulho metálico… as chaves! Queimadas, irreconhecíveis e no entanto, charmosas. Ganharam uma qualidade de chave de baú de tesouro de pirata.

Pensei para mim que do descanso eterno no inferno já não me livrava: desconfiei da dona M quando ela não tinha feito nada. Mas o karma’s a bitch e a vingança cósmica* acontece logo na sexta à noite…

Copo na mão, abro a arca para servir um vinho branco. Tiro a box e eis que uma garrafa de vidro de Coca-Cola salta e ameaça estilhaçar-se no chão. Desce em mim o espírito de Ronaldo, estico a perna e meto o pézinho esquerdo mesmo a jeito de amparar a queda da garrafa, que se dirigia, de bico para baixo (leia-se gargalo) a uma velocidade vertiginosa. Em momento algum me passou pela cabeça que, o objecto em causa pesa pelo menos 600 gramas e que em queda livre, de cerca de um metro de altura, há-de adquirir pelo menos mais 500.

Doeu. Mas foi tão engraçado para o cliente que assistiu na primeira fila, que eu não quis estragar-lhe o “barato” e ri também…. Afinal tinha conseguido salvar a garrafa e o que é uma pequena dor no peito do pé comparada com o esforço de apanhar cacos e Coca-Cola do chão?

A noite terminou, a pessoa foi para casa, deitou-se e nunca mais se lembrou do incidente patrocinado pelo símbolo do capitalismo moderno. Não se lembrou até às seis e meia da manhã, quando acordou com dores excruciantes. Tentei chutar para canto (como tinha feito com a garrafa) e dormir mais umas horas. Nada feito. Às 8 da manhã vou, ao pé coxinho, buscar as saudosas muletas, chamo um taxi e aqui vou eu.

As dores que senti justificavam, no mínimo, uma fractura decente, mas o ortopedista garantiu que nem rachado estava. Precisava de muletas, gelo e descanso.

E pronto, mais de 48 horas depois, a coisa já assentou. Até o pé já assenta razoavelmente bem. Só me dói em determinadas posições e já me borrifei nas muletas.

Deduzo que seja pouco provável que vá para o inferno por ter desconfiado de dona M e pelos impropérios proferidos (só na minha cabeça) quando me acagacei com a figura sinistra por detrás do vidro. Posso ir lá parar na mesma, mas não será por isso. Cumpri a pena ainda em vida: um dia perdido à procura de chaves, 75€ por uma fechadura, cerca de 30€ em urgências hospitalares e deslocações de táxi, uma noite de trabalho e cerca de 24 horas de muletas.

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