“Existem muitos caminhos para a felicidade, ter um gato é um bom atalho.”

Do inverno das coisas ao poente do infinito

Ana Fafe

“Existem muitos caminhos para a felicidade, ter um gato é um bom atalho.”

Não conheço o autor de tal afirmação, mas, numa casa de mulheres onde uma Alice chegou há pouco mais de cinco meses, pareceu-me apropriada, apesar de preferir dizer: “…ter uma gata é um bom atalho”. Não fosse o domínio patriarcal da linguagem e a mudança não seria necessária. Por isso mesmo, continuo a usar as conjugações no feminino, sempre que possível, e depois já estamos praticamente no inverno e a companhia de um felino cai bem, aconchega o colo, ajuda a esquecer o frio.

“Aonde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria. ”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice; ”Depende de para onde você quer ir…”. Reflexões de alguém que não suporta as temperaturas baixas e se afava na manta peluda laranja, quente, por cobrir a fonte de calor da casa. Alice aninha-se no colo, a minha e não a outra. Afaga-se o pelo e os pensamentos fluem, fazendo nascer a tempestade. 23 mulheres morreram às mãos dos seus agressores em relações de intimidade e ainda não terminou o ano; 40 mil imigrantes povoam os concelhos mais irrigados vivendo explorações e em condições de habitabilidade degradantes; os que nascem pobres, mesmo tendo um diploma, têm menos possibilidades de conseguir um bom emprego que aqueles que nascem em berço dourado; mais de 200 crianças vivem situações de abuso no território onde habito; fazer determinados itinerários a poucos quilómetros da minha cidade é o cabo das tormentas; optar por meios de transporte menos poluentes no local que escolhi para viver não é possível nas condições desejadas. As horas passam e já tenho a cabeça à roda com tanta informação turbulenta. E de repente um pensamento: ainda não saímos do inverno das coisas!.

Na televisão fala-se de três mulheres que em 1972, há 50 anos, vivendo no domínio de uma ditadura fascista, e editadas por uma outra, desafiaram as convenções e ousaram falar e, pasme-se, escrever sobre o que nem em pensamentos podiam dizer. E lá foi de novo o dedo tocar na ferida. Cinco décadas depois ainda não podemos falar à vontade, esquecer os estereótipos, vestir azul, decidir o que fazer do nosso corpo sem retaliações, imagine-se, até de outras como nós, querer estudar e aprender mais, viver sós, decidir não saber cozinhar e outras tantas trivialidades que poderia aqui mencionar, mas não me apetece. Chamei-lhe trivialidades? Seria melhor dizer futilidades?. Nem uma coisa nem outra. Realidades isso sim é a palavra que quero utilizar. Os tempos mudaram, dizem alguns. Pois apetece-me contrariar e afirmar que até pode ser, no entanto há aspetos que regrediram e são os números que nos fazem perceber esta fatalidade. Manias da profissão pensei!. E de volta à “batata quente” retorqui comigo mesma: isso de pensar por vezes não ajuda mesmo nada. Podia inventar um portal, já que as redes sociais estão na moda, www.naopenses.pt ou www.naopodesamuar.org e convidar umas e outras a discorrer sobre a vida e dramas de todas nós. Hoje já não se vai presa ou se leva uma sova na rua. Não? Existem formas mais subtis de castrar.

E se uma mulher incomoda muita gente, três podem fazer uma grande confusão… E uma gata? Nem vos passa pela cabeça. E não fosse a pandemia mais as manias que incutiu em nome dos fatalismos e das certezas absolutas e tudo correria bem. Por esta altura, a Alice já tinha saltado umas quantas vezes por cima do teclado do computador a pedir atenção e a referir, de forma insistente, basta!. No quarto ao lado da sala, onde a minha preleção flui e depois de cumprir mais um aniversário, dormia feliz uma das mulheres da minha vida. Estarão a pensar que raio de prosa esta!. Afinal isto tudo para quê?. Pouco me passa ao lado. O que é uma grande maçada. Todos os dias faço a minha pequena revolução. Deixo a janela aberta e não me subjugo ao inverno das coisas pois sei que me espera, sempre, o poente do infinito.

Uma prosa no feminino? De todo. Uma prosa de quem gosta de viver neste mundo e de conviver com o lado masculino, mas sem nunca esquecer o que nos torna a nós mulheres singulares e que é na convivência saudável, na equidade e nas oportunidades sem olhar a género que as felicidades acontecem. Minhas senhoras e meus senhores com 2021 a chegar ao fim não há tempo para balanços. A vida continua e a Alice aguarda o carinho da noite. Não sei revelar, a quem tiver a paciência de ler estas linhas, quais são os caminhos da felicidade. Sei, contudo, garantir que são a minha prole e a minha Alice o atalho para a minha. Não consigo mudar o Mundo, mas posso provocar um estrago ou outro. Esta é a minha promessa para 2022: prosseguir a caminho do mar. E voltar à vossa companhia quando a temperatura, as flores e as cores forem mais amenas. Até lá…

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