Os meninos são alérgicos e os cães têm pulgas.

Maria Campaniça

Celina Nobre

Juvenal nasceu pobre. A horta onde os pais moravam, cercada por um muro de pedra, onde no inverno se acumulavam musgos, haveria de lhe ditar a sina, muito mais do que supunha, quando em criança o pulava, vezes seguidas, para impressionar os poucos que o olhavam, enquanto fazia a gracinha.

Normalmente eram os pais que atentos às suas diabruras lhe diziam:

– Vê lá rapaz, se te sossegas! Não vás estragar o muro do Sr. Engenheiro. Ainda este ano, o senhor gastou uma fortuna para o reerguer.

A escola era longe. Tão longe que nunca mais a viu. Povoada de papéis e de imposições que contrastavam com a liberdade a que se habituou. Apesar do muro que o separava da herdade dos patrões, onde havia gente, música e fartura. Mesas cheias de acepipes, ainda hoje lhe povoam a memória. Sempre que havia uma festa o senhor chama-o para lhe oferecer um dos doces sobrantes. Nunca lhe perguntou qual o seu preferido. Afinal, a miséria não tem escolha.

– Toma rapaz. Lambuza-te. Vê lá se enches as peles. Magricela como és, qualquer dia o vento leva-te! Gracejava, enquanto as serviçais levantam a mesa, num borburinho lento que não incomodava o sono dos cães, estendidos nos tapetes que, pousavam agora ali, vindos do outro lado do mundo, para serem também cama de cães.

O Sr. Engenheiro era, há muito, um homem da cidade. Desde o tempo em que estudou na Escola Agrícola. Por lá ficou. O apego ao campo, esse manteve-se. É para aí que regressa todos os fins-de-semana. Sempre que na cidade, confrontado consigo próprio e com os outros, se sente apenas mais um. O campo é dele. Empreendedor como é, a herdade é onde se experimentam as inovações vindas de longe. Anda agora cheio de entusiasmo, com a instalação dum parque eólico. O monte é ventoso e a produção de energia limpa será um desafio a que não pode ficar imune.

– O vento é que move moinhos. Dizia aos amigos de Lisboa. Quando os convidava para o monte. Move também os sonhos. Vamos lá pôr o vento a render, pois este monte é uma buzaranha. Preciso de todos para pôr o engenho a funcionar. E vocês precisam de trabalho. Dizia quando, na sala entravam os empregados. Estamos juntos!

Os velhos caseiros reclamam das modernices. Das exigências. A idade já não lhes permitia sustentar uma ideia de futuro. As dores nos ossos gastam-lhes os dias, assoberbando-lhes o presente. Pese embora o Juvenal, em quem depositam ainda todas as esperanças. Mas no fundo, da sua humildade e do correr dos anos, sabiam que o único amparo era a horta murada, feita à medida das suas fragilidades. A segurança é mais importante que a liberdade. Quem fez os muros sabe para que servem. O poder é de quem prende e de quem liberta. Acreditam. Daí que a mudança para o lar da aldeia mais próxima tenha acontecido naturalmente. O patrão é bem relacionado e sabe das vagas disponíveis nas instituições da região, quando a demência começa a atrapalhar os afazeres e põe em causa o avanço do projecto concebido para diversificar a base económica do monte. Juvenal, já crescido, multiplica-se entre as exigências do trabalho no campo e as necessidades dos pais, que com o passar do tempo começam a ser muitas. Quando finalmente os pais entram no lar, Juvenal fica mais uma vez em dívida com o patrão.

– Foi o engenheiro que tratou de tudo! Nunca saberei como retribuir-lhe tamanha bondade.

A vida no campo é dura e deixa pouco tempo para férias. Não há interregnos no crescimento das plantas, nem há intermitências na alimentação dos animais.  Juvenal que mora agora na casa dos pais, ou melhor, na casa do Sr. Engenheiro, sabe que tem a responsabilidade de fazer o monte girar. Até enquanto o Sr. Engenheiro regressa à cidade.

Sozinho repete rotinas. Até abre a caixa do correio. Um convite para uma feira local atrai-o à cidade. É aí que conhece Maria. Entre gins e conversas falam de si, de contextos, da vida. Enamoram-se. Partilham vivências. Dormem juntos. Mas pouco. À noite, muito de noite, como se Juvenal não tivesse vida, o patrão liga a convocá-lo. Eram 11 da noite. Enquanto os dois amantes discutiam ainda a consistência dos lençóis!

– Juvenal venha já. Traga o pulverizador. Os cães parece que têm pulgas e os meninos têm alergias.

Enquanto entra na carrinha de caixa aberta, para ir matar as pulgas, Juvenal pensa baixinho mandar o patrão para o c@r@lho enquanto ajeita o pulverizador, no espaço exíguo da cabine, onde moram caixas de ferramentas, sacos vazios de ração e outras utilidades, para quem faz do campo a sua casa. Sempre em construção.

Há uma ideia de segurança que, quase sempre, compromete a ideia de liberdade. Já lhe diziam os pais que agora confundem o muro do lar, com a liberdade da horta.

Quando Juvenal regressa, finalmente, a casa, na telefonia roufenha, da carrinha de caixa aberta, ecoa Mercedes Sosa “Todo cambia”. Depois de matar os parasitas alheios, Maria tinha ido embora.

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É agora que a história começa.

PS: Século XXI – a história não sendo real é, tristemente, inspirada na realidade.

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