O meu pai

à primeira segunda do mês

Sónia Calvário

Em 1946, na terra que viria a ser conhecida como a de Catarina Eufémia, nascia, na aldeia velha, o mais novo de seis. Rabino, destemido, curioso. Adorava a escola. Fugia para a casa da professora para aprender. Gostava de saber. De conhecer. Fazia recados aos homens de trabalho e ganhava uns tostões. Só assim podia assistir às sessões de cinema. Vivia numa casa pequena e humilde, cheia de ternura, onde se partilhava. A família era pobre. Elas, 4, não foram à escola. Os mais velhos cuidavam dos mais novos e ele foi irmão dos sobrinhos.

Cerca dos 14 anos rumou à capital. Para trabalhar. Convenceu o irmão mais velho a comprarem uma motorizada, meio de transporte que tantas vezes o trouxe à terra que nunca deixou de amar. Foi à tropa. 3 anos. Não foi para o ultramar. Nessa altura, na Amadora, conheceu a que viria ser a sua mulher e mãe do seu filho e da sua filha. Também ela de Baleizão, mas da aldeia nova. Uma mulher linda e prendada. A mais nova de 4. A única rapariga. Protegida.

No final da década de 60, emigrou. Para a Holanda, um ano. Fez amizades que duraram toda a sua vida. Depois foi para a Alemanha. Mais tarde, mulher e filho, entretanto, com cerca de ano e meio, juntaram‑se‑lhe. Um mês depois da Revolução dos Cravos nasceu a filha. Portugal era destino obrigatório todos os meses de agosto. Assim, foi até 1982, ano em que o casal decidiu que era hora de voltar para o seu país. Os filhos, de 11 e 8 anos, sempre frequentaram a escola alemã e os exemplos de outras famílias portuguesas mostravam que, com o passar do tempo, o regresso seria cada vez mais difícil.

A aldeia da Boavista, freguesia de Santa Clara do Louredo, no concelho de Beja, foi o destino. Nos dois anos seguintes as saudades mitigavam-se com telefonemas semanais, e até que fosse instalado o telefone em casa, durante longos meses, as chamadas eram feitas com hora combinada, na mercearia da aldeia. Os dois natais e o verão contaram com a sua presença, mimo e boa disposição. Era um homem que gostava de contar anedotas. Tinha uma memória incrível.

Em 1984 juntou-se à família definitivamente. Montou um negócio. Com a chegada do primeiro hipermercado à cidade, depressa tomou a decisão de se dedicar a outro ofício. Era um homem com visão, trabalhador, íntegro e respeitado.

Não lia livros, apenas o jornal A Bola, e diariamente. As refeições principais eram impreterivelmente às 13 e 20 horas. Assistia-se sempre ao telejornal. Gostava de estar informado. Não manifestava preferências partidárias, mas falava de política. Não era religioso, mas respeitava. Era sportinguista, mas sabia ver futebol.

Foi um homem moderno. Sem preconceitos. Disponível para a família, amigos e comunidade. Era um homem bom e presente. Tentou educar-nos da melhor forma que podia e sabia. Sofreu. Muito. Não merecia. Deixou-nos num dia frio e solarengo. Faz hoje 7 anos.

A saudade é imensamente grande. As memórias cada vez mais presentes. E o orgulho de ser sua filha é crescente. Obrigada pai.

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