Podia ser um Conto de Natal

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carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Estava a chegar aos Infantes, eram umas onze da manhã. Enquanto tentava abrir a porta, vi-o no início da rua, do lado da Praça. Levantei o braço e gritei-lhe: “Então, senhor F?”. Ele, levantou os olhos do chão, atirou o braço para o ar e respondeu qualquer coisa como: “Então?!”.

O senhor F era dos regulares, antes do Covid. Vinha a maior parte das vezes sozinho, queixava-se sempre da temperatura da cerveja (nunca estava fresca o suficiente), e de cada vez que eu lhe pedia o dinheiro, dizia, enquanto abria a carteira de onde pendiam notas de 10€, “Olha, não tenho dinheiro!”. E eu, invariavelmente, falava-lhe de toda a loiça que havia na copa para lavar. Ele ria muito, lá tirava uma das notas da carteira, reclamando, satisfeito: “O raio da moça! tem sempre resposta!”. Acontecia, por vezes, que a cerveja, mesmo quente demais para ele, lhe provocava uma subida vertiginosa de decibéis. Eu ralhava e ele ficava sentido, mas só ao terceiro ou quarto ralho, e não demorava a ir embora. Dois ou três dias depois, quando a vergonha desaparecia, lá voltava a assentar arraiais ao balcão.

Nunca me disse que se sentia sozinho, mas numa noite com menos movimento, lá confessou as saudades que sentia da esposa, falecida uns anos antes. Sentia que tinha muito tempo, tempo demais, e pouco para fazer. Foi também nessa noite, que me mostrou, com grande orgulho, as fotografias dos barquinhos que constrói em garrafas e que, imagino eu, seja trabalho para horas e paciência infinitas.

O Covid apareceu e o senhor F desapareceu do meu radar. Talvez me tenha cruzado umas duas vezes com ele, ao longe. O hábito perdeu-se, o ambiente mudou, as pessoas também e o balcão dos Infantes já não lhe servia de apoio e nunca mais naquela casa, foram servidas médias dentro de mangas térmicas.

No dia em que o vi na Rua dos Infantes, ele apareceu, encostou-se ao balcão e pediu a costumeira cervejinha. Estranhei: não se queixou da temperatura. O tempo passa e até das piadas privadas nos esquecemos, não é? Mas desta vez, eu sabia, a cerveja não estava realmente muito fria. Perguntou-me o que andava a fazer tão atarefada na copa. Falei-lhe do vinho quente, fez um ar desconfiado, nunca tinha ouvido falar. E quanto mais eu tentava vender a coisa, mais ele parecia resistir à ideia. Dei-lhe um copinho para provar, ficou todo contente: era doce.

Quando parei no balcão um bocadinho, disse-me com timidez que, o que eu tinha feito naquela manhã tinha sido “muito bem feito”. Não percebi. E ele insistiu, ainda tímido, “Hoje! De manhã!”. E eu, desconfiando pelo tom, que aquela conversa nos ia levar a locais demasiado sentimentais para alguém, que como eu, tem uma pedra no lugar do coração, chutei para canto. E ele insistiu com os olhos postos no balcão: “Fizeste uma grande festa quando me viste…”. E eu, já resignada, envergonhada por haver ali, naquele metro quadrado, tanta emoção com a qual não sei lidar, mas reconhecendo a seriedade da situação, baixei o tom de voz. O instinto de sobrevivência emocional mandava-me continuar a diminuir a importância da coisa, mas ao mesmo tempo estava apavorada perante a possibilidade de o ofender: “Ora senhor F, disse-lhe bom dia, não ia fingir que não o vi!” E foi aí que me tocou no braço para me obrigar a fitá-lo. Tem os olhos comovidos enquanto me diz: “Vê lá se me entendes… somos realmente amigos, não é?”

Somos sim senhor, senhor F, feliz Natal.

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