Ovelhas desnorteadas 

Maria Campaniça

Celina Nobre

Na cabeça das pessoas coabitam novelos emaranhados de ideias. Alguns parecem rebanhos de ovelhas desnorteadas, campo fora, que não obedecem ao pastor.

– Coitado do pastor!

Por vezes chama-as amorosamente pelo nome, obtendo, quando muito, um béééé longínquo, do qual nem sabe a proveniência, muito menos encontrar a forma de pôr pelo menos uma meia dúzia dessas bichas na linha. Outras vezes, já irritado, atira-lhes o cajado, ao mesmo tempo que vocifera, todos os palavrões, que aprendeu ao longo da vida dura, feita a guardar ovelhas loucas, anos a fio aguentando intempéries, calores escaldantes ou outras manifestações abruptas da natureza. Como com vinagre não se apanham moscas, ovelhas também não! – Pensa com os botões dourados da pelica, enquanto o cajado, com a força da raiva, se projecta de tal forma que onde caí faz mossa na terra, atiçando os cães e dispersando ainda mais o gado. Algumas das borregas, com o susto provocado pela chinfrineira do pastor e dos cães, pulam as cercas de arame farpado e instalam-se na pastagem do vizinho, abocanhando erva alheia, mas viçosa, alheadas do estado em que fica quem as guarda. Ou deveria guardar. Esta falta de controle sobre o rebanho extenua cada vez mais o pastor que, parecendo que não, também já não vai para novo. À noite, quando se estica na enxerga de palha e liga a rádio local para ouvir os discos pedidos, até as músicas que há tanto gostava já o aborrecem. Há noites que passa em branco, contando estrelas no céu, quando estas aparecem para o visitar, outras entretém-se a fumar cigarros feitos à pressa numa máquina que há muito deixou de ser uma ferramenta útil ao seu prazer, para se tornar num engenho que enrola tabaco em papel, para lhe entupir o peito. O garrafão de vinho carrascão que com ele habita a cabana e que, frequentemente, renova na taberna da aldeia mais próxima, sempre o alegrou. Era sempre esse o companheiro de agruras e dos momentos mais felizes. Era enchendo o copo que ia enchendo o corpo de energia, até para o cante. Há muito que assim não era. Sentia-se cada vez mais cansado. Nota‑o ao subir a encosta atrás do gado insubmisso, indisciplinado e cheio de vontade própria que, entendia, ter à sua responsabilidade, mas constatando, aos poucos, que até de si já cuidava pouco. As côdeas de pão duro, que guardava no talego, eram a base para todas as refeições. A estas bastava acrescentar 1 ou 2 torresmos de rissol, uma fatia de papada curada, ou de quando em vez uma lasca de presunto. Há muito que deixara de acender a fogueira, ao lado da cabana, para fazer comida de tacho. Fruta, nem vê‑la. Vegetais, como tengarrinhas e beldroegas não puxam carroça e também deixou de os apanhar no campo para colorir os jantares de feijão ou de grão, com que antes lentamente se deliciava, enquanto admirava a beleza dos campos floridos.

– Um homem sozinho come qualquer coisa! Também, que raio é um homem sozinho?

À medida que tempo passava iam aumentando as dores nas articulações. O que começou por uma dor no joelho esquerdo, que besuntava frequentemente com enxúndia de galinha misturada com aloé vera, rapidamente lhe atingiu os restantes encaixes – como lhe chamava – condicionando-lhe os movimentos, a liberdade e a capacidade para o que de mais importante havia na sua vida: tomar conta do rebanho.

Esta noite, cansado e com uma ligeira falta de ar, chegado à enxerga adormeceu como um menino. Aparentemente como antes adormecia, quando estava apenas cansado. Desta vez, recostado em 2 almofadas feitas de palha de centeio, caiu num sono profundo, estranho. Entre figuras rudes que se movimentavam devagarinho no escuro, por ruas estreitas lamacentas, havia caras que não lhe eram estranhas. Desfiles de pessoas perdidas corriam entre os escombros de lugares que antes já tinham sido grandiosos, desembocando loucas num mar de águas escuras, de onde se elevou uma onda gigante que lhe submergiu a cabana, arrastando-o também com ela. Ouviu uivar os cães.

Sentado na enxerga cheio de suores e de palpitações, entre o sonho e a realidade, encetou uma séria dificuldade em separá-los.

Assustado, só caiu em si quando os 3 rafeiros, ajudantes dessa difícil tarefa de guardar rebanhos, lhe lamberam a cara e as mãos, ainda suadas.

– Ah, malandros vocês também se assustaram! Daí os uivos. Dizia baixinho, enquanto distribuía palmadinhas no dorso dos cães.

Já de pé, como um homem rijo, olhou o céu tingindo dum cinzento antracite, anunciando chuva e pensou alto:

– Oh, diabo! Queira deus que eu não esteja maluco! Se assim for o que será feito das minhas ovelhas?!

Enquanto se espreguiçava, para dispersar as dores, olhou em volta para fitar uma. Vendo-a descansou, pois sabia que, embora teimosas, ovelhas que são ovelhas andavam sempre em rebanho.

PS – Porque de quando em vez é importante falar de saúde mental.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s