Dormindo com Kafka V

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à primeira segunda do mês

Filipa Figueiredo

O segurança da empresa, onde trabalhava a Menina M, que passou a ser o guarda-costas do diretor da empresa, onde já não trabalhava a Menina M, durante os tempos de pandemia e de trabalho on-line, passou a ser um verdadeiro moço de recados, ou seja carne para canhão, e recebia as ordens por smartphone, duma plataforma qualquer que considerava ultrassecreta. As suas funções eram desde transportar material perigoso ou frágil, mediante o símbolo do pacote, até ao aeroporto, assim como treinar tiro ao alvo.

Tinham-lhe dito que estaria a participar numa missão importante pela pátria e que o seu papel em prol da segurança da nação, e do mundo, era imprescindível. Ora o seu espírito de Mama Sume Comando não lhe permitia questionar, cumprindo todas as ordens e moldando diariamente um semblante desafiador, acrescentando aos músculos um movimento anti relacional, pouco potenciador. Todos os dias acordava com fantásticos axiomas enviados por Messenger, sobre a igualdade ou união do povo pelo bem comum, apesar de cada vez mais o seu corpo se transformar numa figura de que ninguém ousava aproximar-se. Imaginava que dentro daqueles pacotes estaria a verdadeira cura da humanidade, talvez um elixir que eliminasse de vez o vírus ou que purificasse todos os males da sociedade. Esta crença tinha um poder assustador, como se colocasse todos os dias um anel, como os anéis do “senhor”, pois dava-lhe a força necessária para prosseguir cegamente a sua missão. Entre as compras de supermercado que semanalmente ia fazer à mãe e as  viagens à capital para transportar o produto, passava pelo campo de tiro para aprimorar técnicas e pontarias. Nada como ser certeiro e atingir o alvo sem pestanejar, algo que o excitava, mais ou menos como uma sensação divina de domínio da perfeição. Um dia a mãe ficou muito doente. Estava com sintomas fortes e muito fragilizada, o bicho tinha-a atacado em grande. Ora o segurança do escritório, onde já não trabalhava a Menina M, e que passou de guarda-costas a mula de carga, andava bastante nervoso, ansioso só de pensar que a sua mãe estava prestes a perecer numa cama de hospital. O espírito messiânico que incorporava na sua tarefa e que tinha em relação ao Senhor diretor, começava a desvanecer. Numa manhã recebe mais uma mensagem, mas desta vez enigmática “os inimigos dos meus inimigos, meus amigos são. Está na hora de te juntares à luta contra as ilusórias democracias. E a favor da igualdade.” Esperou mais informação enquanto foi até ao hospital mas não o deixaram visitar a mãe. O rapaz começou com suores frios e a ornejar, síndrome de abstinência de amor de mãe. Saiu a galope do hospital e para atenuar o sofrimento focou-se na tarefa do dia, foi buscar o pacote ao sitio do costume, mas desta vez não resistiu e abriu-o.  Lá dentro estava apenas um espelho. Um espelho emoldurado a ouro com destino a um qualquer oligarca. Ao observar o espelho viu refletido um belo de um focinho cinzento e orelhas bem compridas cinzentas e brancas. O susto foi grande mas ao mesmo tempo achou a sua transformação bem desenhada, sentiu de certa forma um gosto narcísico, cada vez que se via refletido sentia-se um rei emoldurado. Enquanto se enamorava do seu retrato, recebe um telefonema do hospital comunicando o pior. Lança um zurrar agudo e sofrido e mete-se no carro usufruindo da falsa sensação de liberdade que a aceleração e o movimento criam no corpo e na mente. E como todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros, juntou-se à barata e à mosca num prédio em Lisboa. Com Marquise. E criou uma empresa de desinfeção especializada em homicídios, suicídios e decomposições.

Reler:

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Dormindo com Kafka II

Dormindo com Kafka III,

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