Os bons e os maus. E os míopes.

Maria Campaniça

Celina Nobre

Sempre que extremamos posições, deixamos de ser capazes de ver e de sentir o espaço possível para a intercepção com o outro. Em campos opostos, o que importa é apontar o dedo aos defeitos do inimigo descurando os nossos, que são os únicos em que ainda poderemos manter alguma esperança de os poder alterar. Mas a facilidade atrai. Como se identificar o defeito do outro bastasse para nos isentar dum similar. Confortavelmente, numa qualquer poltrona do universo, desprovidos duma humanidade necessária, olhamos os outros, catalogando-os. Responsabilizando-os. Assim, tudo que de mal nos acontece terá sempre uma raíz. E essa nasce permanentemente num campo alheio. Onde nunca podemos por a foice porque a seara não é nossa. E nas flores nunca se toca. Sobretudo nas nascidas em seara alheia.

Esta postura perante a vida e o mundo – acredito – poderá ser confortável, mas não é consciente. Consciência que é consciência nunca nos abandona e até à noite se aconchega debaixo da nossa almofada para fazer connosco a revisão do dia. É assim que acontece comigo. E nunca a dita consciência apontou armas aos outros. É sempre a mim que se dirige e é comigo que acerta contas. Nem sempre as ditas dão resto zero. Difícil é por vezes acertá-las, porque a dúvida, as opções, os critérios que lhes estiveram subjacentes, quase nunca são uma linha recta. Ainda assim, é a mim que devolvo a responsabilidade. Pelas escolhas, pela forma como recepciono as mensagens, pelas acções, pela angústia. Sobretudo depois de tomar as decisões. Em boa da verdade, e pese embora as energias empreendidas, gosto destes duelos. Acordo sempre mais crescida, embora muitas vezes dorida.

Este preâmbulo serviria na perfeição para enquadramento da situação de guerra que agora – no século XXI – vivemos. Não só na Europa. O mundo há muito que é globalizado. Não adianta, por isso, querer localizar os problemas, restringindo-os a espaços alheios, para que não nos afectem.

À minha escala apercebo-me deste dualismo há já demasiado tempo. No trabalho, na família, na sociedade em geral.

Agora a luta entre o bem e o mal assombra-nos porque é mundial e está à distância dum botão.

– Quem é o dono do comando?

Revejo compêndios de história, na minha cabeça passam imagens de filmes, que garanti a mim mesma, que nunca mais veria, porque me envergonham como pessoa. Vejo biografias de loucos a quem se entregou o poder. Dando-lhes até o poder para que  alterassem Constituições. Foi assim que perpetuaram o poder, até para além da sua esperança de vida. E a Europa alegremente passou discursos, numa rádio que pouca gente ouviu, com se a geopolítica tivesse ficado lá atrás, onde se enterram os mortos, há muito tempo. Num tempo tão distante que é, por isso, irrepetível.

Enquanto abro a janela, para apanhar o que resta do ar do dia, percebo que um bando de pássaros rasga o céu.

Simbolismos.

Ou apenas aves migratórias, brancas, que não vejo.

Talvez por ser míope.

À noite, quando me aconchegar na almofada, e me encontrar com a consciência, vou ver o que ela me diz.

Mais uma noite em que as contas não irão dar resto zero.

Mas desta vez não vou ter que as acertar sozinha.

E a maior dificuldade não estará em separar os bons dos maus.

– Tantos míopes!

Uma opinião sobre “Os bons e os maus. E os míopes.

  1. Um excelente texto. Não há bons, nem maus! Porque, como sempre me dizia uma amiga, “Para que o MAL vença só é preciso que o BEM não faça nada”.

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