Bons dias maria teresa até depois | preciso de tomar o meu pequeno almoço | a cerveja era boa mas é bom comer | como come qualquer homem normal | e me poupa ao perigo de até pela idade | me converter subitamente num sentimental *

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Se foi do meu avô que herdei as rugas fundas do riso, da minha avó herdei a capacidade de chorar por tudo e por nada. Porque estou triste, porque estou feliz, porque me comovo com alguma emoção alheia. É uma habilidade que eu tenho, quase um super-poder. E se me ria, sem lágrimas, da minha avó quando lhe via os olhos marejados num momento mínimo de alegria, concedo que se riam de mim agora, por ter lágrima fácil. Tenho orgulho até e não sei se é porque o super-poder me chegou da minha avó ou se por tê-lo perdido por um período. Riam, sabem lá o alívio que é poder sentir outra vez.

Desde que recuperei o meu poder que o uso sem cerimónia e quase sem vergonha nenhuma. E de cada vez que me sobem as lágrimas (imagino que sobem sem saber se é mesmo assim, mas não vou pesquisar, agrada-me a ideia de que seja uma espécie de fervura interna que provoca a chegada da água salgada aos olhos), celebro-as porque me libertam e durante muito tempo não fui capaz de libertar coisa nenhuma e toda a gente sabe que não faz nada bem guardar dores e alegrias.

Não será necessário dizer que nas últimas semanas tenho chorado várias vezes por dia. Choro por ver a dor nos outros, choro com os pequenos alívios de que vou sendo testemunha à distância e em segurança. Choro quando me apercebo da tremenda sorte que temos por termos nascido e vivermos aqui, neste cantinho. Choro com a generosidade pura que as grandes tragédias fazem vir à luz. Choro com os actos de bravura e coragem de gente que, sentindo, em vez de chorar se arma de valor e com a espinha direita se entrega a perigos e injustiças porque decide que estar do lado certo é o mais importante de tudo.

Choro quando penso nos ucranianos que saem, nos que ficam, nos que se afligem de longe, nos que se arriscam. Não há poesia nenhuma no medo, no terror, no abandono. Choro quando vejo os homens, os pais a ficarem para trás enquanto os filhos vão para qualquer lado onde não rebentem bombas. Não percebo de política, de geoestratégia, de geopolítica, direito internacional ou de qualquer coisa que faça diferença nestas questões, mas não há geopolítica que justifique a tirania de roubar um pai a um filho ou um filho a um pai. E claro, choro: é o meu super-poder a libertar-me da impotência perante a tragédia.

E enquanto choro penso na Maria ou porque penso na Maria, choro. Não é importante. Importante é sabermos que a Maria é moscovita e vestiu-se com o fato tradicional ucraniano e empunhando um cartaz anti-guerra plantou-se, sozinha, numa rua de Moscovo, à espera que a polícia a fosse buscar.

Penso na Marina que empunhou um cartaz de protesto na televisão nacional, interrompendo o telejornal.

Penso na poesia do protesto do rapaz que no meio da rua, segura uma folha em branco. Penso na poesia que há no poder de uma folha em branco, onde qualquer coisa pode ser escrita, onde o protesto mais veemente está presente sem que exista um pingo de tinta.

Não sei nada das ciências que podem fazer a diferença nestas situações. Tenho um super-poder que só me serve a mim. Leio poesia, às vezes onde ela não está escrita.

Os que, em qualquer um dos lados da fronteira, resistem fugindo, lutando, protestando; os que se salvam, seja das bombas, seja do inferno de não fazer nada; os que enfrentam a tragédia, fazendo com isso poesia que não se pode escrever, são as vítimas, mas também são os heróis. Ainda os há.

E que falta fazem a esta humanidade que uma pandemia não tornou melhor. Não vai ficar tudo bem e não há arco-íris que nos valha. Mas a esperança também é poesia. E acima de tudo, possivelmente, a única coisa que nos resta, me resta, eu que tenho um super-poder que só me serve a mim, mas leio poesia onde ela não está escrita.

*Excerto do poema “Elogio de Maria Teresa” de Ruy Belo

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