A minha vida não dava um poema

Nádia Mira

Março é, por excelência, o mês de celebração da poesia. É um lugar-comum dizer-se, relativamente a determinadas celebrações, que estas se fazem quando cada qual quiser e eu, que não desdenho um cliché, abraço este com afecto – todos os dias celebro a poesia.

Há poucas coisas que me deem tanta satisfação como encontrar um poema que me apaixone. Poeta, enfim, é que não sou.

Escrevo pouco, não tenho imaginação, sou parca em lirismo e a minha vida nem sequer dava um bom poema, pelo que a pretensão de ser poeta está há muito perdida. Mas não deixa de ser como o poeta que quero fingir, que quero desejar e que quero falhar. Ainda é invadida de ternura poética que olho o amor e será sempre em verso que choro a morte. A minha vida não dava um poema mas, foda-se, até a graxa das minhas botas tem poesia.

Não sendo poeta, mas cansada da parcimónia a que tenho obrigado esta paixão, decidi finalmente abandonar o platonismo e consumar a relação, assim, assumi a coordenação do projeto da Arruaça, Novos Poetas de Beja. O resultado já está em livro e reúne quinze autores, sem obra poética publicada e residentes no concelho de Beja.

A escolha dos autores podia ter sido outra, foi feita exclusivamente com base na nossa sensibilidade e, portanto, será sempre discutível. Tentámos que houvesse diversidade, mas que simultaneamente o livro possuísse uma identidade. No processo de seleção, comovemo‑nos, por mais do que uma vez, e isso já era bastante para formarmos a convicção de que o nosso livro seria poesia.

Quem acedeu ao open call que propusemos, confiou-nos parte de si e a nossa preocupação foi, sobretudo, não defraudar tal confiança. Apesar das limitações, o nosso propósito foi o de termos uma publicação de que os autores se pudessem orgulhar.

Novos Poetas de Beja – Uma Coletânea terá apresentação no próximo domingo, dia 3 de abril, pelas 17h00, n’A Pracinha e eu estou nervosa. Sinto-me como se tivesse tido, finalmente, a coragem de convidar para um primeiro date um amor antigo. Enfim, a minha vida não dava um poema, mas não me canso de escrever rascunhos!

“Procurai no recanto e no reboco
vereis então que Beja é muito.”
Manuel Alegre

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