Manhãs claras

 

Do inverno das coisas ao poente do infinito

Ana Fafe

Há quem viva preso no passado. Outros têm nos dias que passam a perspetiva do futuro. E depois há o presente!… E as notícias dizem que desde 1993 que não havia memória de uma taxa de inflação tão elevada. Foi preciso recuar ao século passado para frisar que ninguém se lembra de tempos difíceis e inseguros? 8,0 por cento é um número em que até os humores do clima se viram contra nós.

Mas eu não tenho medo do caminho. Passo no meu tapete voador escancarando a janela ao sol que espreita no verão que tarda à procura de nova viagem, de noites de companhias prometidas e lembranças de dias quentes. No cordel de tais pensamentos a oferta dos dias. Pois sempre que acordamos neles recebemos presentes.

Toda a gente sabe que os dados estão viciados e que caminhamos de dedos cruzados. A guerra acabou! Os bons perderam e a luta foi armada. Os pobres continuam pobres e os ricos ficam ricos. É assim que as coisas são? Toda a gente sabe? Ou não! Reflexões dos poemas do Cohen que brincam como fantasmas em mim. Não fosse o preço de viver onde a carteira pesa de vento e os armários de casa escondem o tempo… e tudo ficaria bem.

As ideias serpenteiam a face à beira de uma explosão certeira. É nesta altura que me chega à memória “uma frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”, já cantava Sérgio Godinho. O mesmo que nos lembra que “cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas” ou que “quanto a apertar o cinto, sinto muito! Filosofem os que sabem lá do assunto”.

Entre impostos que rodopiam sem freio, inflações que assombram sonhos, pães que custam fomes e energias em que não há gás que lhe valha… surge o Casimiro. O da canção claro! “Ficava de olho aberto,
via as coisas de perto pois é uma maneira de melhor pensar. Via o que estava mal e como é natural tentava sempre não se deixar enganar, pensando sempre com os seus botões: cuidado justamente com as imitações”.

E no meio de toda esta dança a mulher! “A sexy”, pois então, a que “desliza quando passa, a da publicidade, a que sonha em perder calorias”, ou seja só “com estilo com glamour e muito brilho onde toda a roupa assenta… Só à gente é um sarilho”. As voltas das canções e desta vez a da Garota Não, a sublinhar “quanto talento gasto em vão”.

No final das contas, até porque é disto mesmo que todas as palavras aqui ditas falam, como ultrapassar o pó da estrada e afastar as cordas do caminho? Não há receitas. Na mesa são esperados sempre melhores temperos e que sejam mais povoadas as ruas da cidade.

“Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”, reza o ditado, e é perante este otimismo/fatalismo bem português, realidade à qual não fujo nem quero, que se “levanta tempestade na solidão da lonjura e que tenho vontade, dispo a vaidade e faço uma jura!”

E depois deixem-me citar Eugénio de Andrade e “inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas” para acabar com dependências nacionais de outras paragens que nem precisam de ser mencionadas. Enfim “descobrir rosas e rios e manhãs claras”…

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