Baloiço de corda

Maria Campaniça

Celina Nobre

Houve uma época em que nasciam baloiços de corda, nas azinheiras, onde as crianças se divertiam, empurradas pelos sonhos.

A escola era cheia de crucifixos e de fotos sépia, emolduras em madeira, imbuídas de tempo, que iam sendo, lentamente, roídas pelos bichos.

Nessa altura, as meninas usavam laços brancos no cabelo. E sonhavam encontrar príncipes. Não precisava ser na escola. Era em casa que se aprendia a arte de ser mulher. Esticando roupa, ao lume cozinhando, em panelas de barro ou de ferro, jantares lentos. Numa Singer costurando bainhas de corpetes para uso próprio, ou de coletes elegantes para que o seu putativo homem brilhasse: em qualquer taberna, caçada, feira, ou na vida.

Os meninos usavam pouco. Ou muito. Consoante o nome de família. Nessa escola despida d’alma poucos sabiam que eram gente. Descalços e de pés enlameados, ou com botas feitas à medida, de couro de vitela, que poderiam durar uma vida inteira, ainda não sabiam ao que vinham. Encontravam-se na escola. No recreio corriam atrás uns dos outros, como fazem todas as crianças. Quando ainda não sabem do que o mundo é feito.

A sede, no intervalo, fazia-os fazer filas à porta da casa de Maria. Na Praça. A água fresca partilhada, no cocharro de cortiça e derramada, no bibe branco, secaria logo que se voltasse à sala de aula, onde as nódoas não eram admissíveis. Ainda que fossem de água e que desaparecesse por conta própria. Com o tempo.

No baloiço de corda atado à azinheira da praça, pelas mãos do regedor, que se achava perito na arte de dar nós duráveis, disputavam a sua vez. Fazendo valer qualquer vantagem. A força. A origem. O resultado nos ditados. Ou noutras provas a que já havido sido sujeitos. Ou apenas o laço branco: essa limpidez que, contrastava com o brilho dos fios castanhos do cabelo, que pareciam seda, e que, por si só, era por todos apreciada. Sem mais nada. E constituía vantagem.

– Deixem ir a Maria.

 Eu dou-lhe a minha vez. Dizia o Manuel, enquanto olhava para a menina de laço branco e de bibe curto. Um cavalheiro. À nascença.

 Maria agarrada, à corda do baloiço, deixava que os sonhos a empurrassem. Eles faziam quase tudo. Entre o vai e vem entrecortado por gargalhadas, que jorram da alma das crianças, movimentava o corpo, a corda rangia e até a árvore aparentava balançar.

A força dos sonhos.

Na vida sempre assim tem sido. Forte. Espartana. Determinada, embora nunca ousasse pôr em causa a autoridade paterna. Até mesmo depois do pai já ter morrido há muitos anos. Foi mãe. Mãe viúva. Viúva a tempo inteiro. Nunca tirou carta, mesmo querendo aprender a conduzir, porque uma mulher, sem marido, não se aventura nessas coisas de conduzir. Nem os carros nem a vida. Não foi onde queria. Porque lhe incutiram que poderia parecer mal. Não foi professora, como queria, porque nasceu menina e, numa família de mais 2 irmãos homens, escolheram o mais novo para estudar na Escola Industrial. Maria fazia queijos, como uma deusa do leite, para ajudar nas despesas escolares do irmão. O mesmo irmão que, anos mais tarde, lhe comprava vacinas para a proteger da gripe.

Já depois dos 60 ainda ousou voar sozinha, aventurando-se, pelos ares até à Suíça.

A mim, que tive a sorte de ser sua filha, abriu-me portas. As portas. Ou ensinou-me a abri-las. Teve até a coragem de me mostrar onde era o baloiço de corda, onde brincou, quando ainda era pequenina. Já sem regedor, mas ainda resistente agarrado a uma árvore velha. Disse-me que foi ali que soube o poder dos sonhos. Da liberdade. Da dignidade.

A Bia, hoje, voltou a pôr o laço branco e o bibe curto. Está outra vez na escola. No lar reencontrou o Manuel. Enquanto fazem exercícios de estimulação cognitiva, as cadeiras rangem e o bicho continua a comê-las. A vida caminha, no seu devir, como um comboio, louco, que só quer chegar ao destino. Sem paragens entre estações. Muito menos entre apeadeiros.

– Filha, eu ando na escola. Já estou muito velha, mas ainda aprendo. Só não quero tirar o lugar a alguém mais novo que queira também aprender. Mas já agora que me matriculei vou acabar o ano. E em todos os exercícios vou dar o meu melhor.

Esta é a menina de laço branco no cabelo. Agora também já branco, mas que ainda sabe onde fica o baloiço de corda.

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