“eu não sou um livro | e quando me dizem | gosto muito dos seus livros |…

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

“eu não sou um livro | e quando me dizem | gosto muito dos seus livros |

gostava de poder dizer | como o poeta Cesariny |

olha | eu gostava | é que tu gostasses de mim |

os livros não são feitos | de carne e osso

e quando tenho | vontade de chorar |

abrir um livro | não me chega |

preciso de um abraço. “

Adília Lopes

A determinada altura da vida de uma pessoa o tempo passa muito rápido. Se ainda não deram por ela, é porque ainda não chegaram lá, perguntem a quem quiserem. No meu caso, foi a partir dos 27 anos, mais coisa menos coisa.

Talvez tenha sido numa Ted Talk que encontrei uma explicação científica para o fenómeno. A mim, que não percebo nada de ciência ou de cérebros, convenceu-me: quando o nosso cérebro está a guardar memórias, a apreender alguma coisa, temos a sensação de que o tempo distende e quando olhamos para trás, parece que aquela fase durou mais do que aquilo que efectivamente durou. Pelo contrário, quando a nossa vida é “outra vez arroz” todos os dias, o tempo funde-se, dando a sensação de que foi menos tempo do que o que realmente foi. Acontece-nos quando, por exemplo, realizamos a mesma viagem todos os dias, quantas vezes chegamos ao destino sem ter noção de como lá chegámos?

E bom, a má notícia é esta: se sentem que o tempo está a correr, que os dias se confundem, que quando dão conta já passou uma semana e não conseguem distinguir os dias uns dos outros é porque não estão a aprender nada. A boa notícia: não estão sozinhos e é tão comum que há até  estudos científicos sobre isso.

Fiz anos ontem. Sempre gostei de fazer anos. Acho que o aniversário é data a festejar. Talvez porque nesse dia toda a gente gosta de mim e eu sempre gostei que gostem de mim. Mais um ano, mais uma ruga de expressão, uma variz na perna, uma dificuldade de movimento que não tinha. Mais uma mancha na cara, maldizendo as horas passadas ao sol sem protector… Maldizendo também o tempo perdido à procura de qualquer coisa que ou não existe de todo ou, a existir, só pode ser encontrada dentro, não fora.

Falo de tranquilidade, de paz, de satisfação com a vida ou pelo menos a visão certeira de saber o que falta e como consegui-lo para ficar satisfeito.

É talvez aqui que resida a reconciliação com o mundo e connosco de que falam os mais velhos. A tranquilidade e a paz que devem (?) chegar-nos com a idade,  preocuparmo-nos cada vez menos com o que pensam os outros e a certeza, que se instala pouco a pouco, de que, mesmo que o nosso cérebro estivesse sempre a aprender, o tempo efectivo, real seria sempre curto.

Assente nesta perspectiva de que o tempo é curto, talvez consigamos ver a vida de uma outra forma. Talvez consigamos olhar mais para o todo em vez de para as partes. Talvez se consiga castigar menos o sistema nervoso com achaques provocados por minudências da vida que nos parecem adamastores à primeira vista.

O que é que ando a fazer em busca dessa tranquilidade? Primeiro, ando a tentar borrifar-me para o que os outros pensam. Não é fácil, mas esforço-me. Segundo, duvido mais das pessoas e das coisas, mas simultaneamente, não deixo de acreditar nas coisas e nas pessoas. Porque de contrário corro o risco de me tornar mais cínica, mais azeda com a vida. Quem não conhece pelo menos um espécime dessa raça que são os azedos? A vida não nos deve nada e os outros também não.

Se pareço muito pensativa e a fazer lembrar esse guru emocional que é o Gustavo Santos, lamento profundamente. Mas ando mesmo a pensar nestas coisas. O dia de aniversário é um dia feliz, afinal sobrevivi até aqui, mas é também um gongo a lembrar a passagem do tempo e que é preciso desligar o piloto automático e pensar nas coisas com mais trambelho. Nem tudo na minha vida precisa de ser de esguelha, preciso de coisas mais bem feitinhas, mais torneadas, mais esculpidas.

Fiz 42 anos e às vezes sinto-me um bocado gasta. Mas a boa notícia é que ontem engraxei o meu velho blusão de cabedal e ficou bem giro e cheiroso, para quem gosta do cheiro da graxa. Na verdade, foi como se lhe tivesse dado uma vida nova. Também eu, talvez só precise de uma camada de graxa e fico como nova. E cheirosa. Para quem gosta do cheiro da graxa.

 

 

 

 

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