Atrás de tempos, tempos vêm

Maria Campaniça

Celina Nobre

“Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr.
(…)
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
(…)
Eu sei de histórias verdadeiras
Umas belas
Outras tristes de assombrar
(…)
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir
(…)
Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito.
A cair.
Não é do povo
Nem da raça.
Mas do modo como vês o porvir.
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir"                                 
                            - Fausto Bordalo Dias –

A vida, ultimamente, escorre, lânguida e massificada, por entre os dedos. Repetitiva. Como se de um pendulo se tratasse, do qual já adivinhássemos o movimento. O trabalho preenche os dias. A era digital sendo suposto aligeirar procedimentos, adensou-os. Plataformas, aplicações e outras invenções requerem, a todo o instante, a intervenção humana. Duplicam-se tarefas, imprime-se o documento, não se vá dar o apagão digital e comprometer as evidências do que fizemos e como o fizemos. Perdidos entre papéis e ecrãs, sem tempo para as pessoas, assistimos ao tempo a passar. Levantamo-nos cedo. Deitamo-nos tarde. Como se adiantasse! Nesta insanidade colectiva, sinto-me um rato altamente sensível – RAS – correndo desnorteado atrás de 20 queijos diferentes, sendo que todos estão presos a uma esparrela. Como iscos apetecíveis, mas enganadores. Acumulo, no corpo e na alma, o peso do incumprimento. Das tarefas adiadas. Da casa que não se limpou. A família. A quem ofereço, ao final do dia, o que resta de mim. E que é tão pouco! Tantos dias.

No meio duma reunião, via TEAMS, olho-me, ao espelho virtual, e constato que o tempo passa a correr. Entre os ruídos-parasita, de quem se esqueceu de desligar o microfone, e os conteúdos em análise, alheio-me, por instantes, e penso comigo:

– Já tratavas de ti! Não queiras, não. Pareces um dominó! Tal a dimensão da barrinha no cabelo.

Envolta nestes pensamentos difusos, a reunião termina. Formulo a todos votos de bom trabalho. Só quando desliguei o computador percebi que já eram 6 da tarde e que, a essa hora, deveríamos desejar bom descanso!

No caminho para casa passo pela cabeleireira. Abrando o carro, através da porta de vidro, vejo pessoas. Muitas pessoas. Acelero até ao supermercado. Antevejo o barulho dos secadores,  misturado com conversas ligeiras, de ocasião e juro, a mim mesma, aguentar como um dominó, mais alguns dias. Tratando das necessidades primárias.

No supermercado um corrupio de gente vagueia entre prateleiras. Há também borburinho. Imagino lamentações, em várias línguas. Gente, com olhar cansado e disperso, vencida pela dureza da vida real que se contrapõe à prometida. E que se arrasta. Apenas. Também até à caixa. Onde se contam os cêntimos. Evitando pensar no suor despendido para ganhá-los.

Entre contas de cabeça e encontrões componho o cesto. Faço opções. Não consigo deixar de pensar em quem ganha o SMN e que tem que alimentar uma família, quase sempre maior que a minha.

Já na caixa, enquanto espero pela minha vez, agarro no telemóvel. Não sei onde cliquei. Vá-se lá saber porquê leio a seguinte mensagem:

– Linha cronológica. O seu dia mais agitado no último mês foi hoje. Quer voltar atrás no tempo?

– Que pergunta! Pensei com os meus botões.

No meu imaginário ainda piso poças de água, entre o Monte da Rocha e a Conceição, com as botas de borracha amarelas, que o tio Mário me ofereceu, trazidas da capital. À minha frente corre o Pirolito, pelo meio das ervas, onde gotas cristalinas de água se aninham para reflectir raios de sol envergonhados, mas que a todos chegariam. Acreditava.

Há memórias que se assemelham a uma película fina que se cola à pele. Pensei, esboçando um ténue sorriso, enquanto abria a porta de casa.

Preparo o jantar – já são horas – e vou, em simultâneo, catrapiscando um documentário, na SIC notícias, acerca das alterações climáticas. Sem que apreenda a totalidade da mensagem, sinto o coração acelerado. Entre peitos, um suor miudinho e insidioso escorre-me pela barriga. Os cabelos ficam molhados. Também. Incomodando-me.

– Eco-ansiedade. Pensei. Era só o que me faltava!

Recolho à cama. À viola não retorno. Não saberia o que fazer com ela. A um livro também não.  Já não sou capaz.

Um cansaço pegajoso apodera-se do corpo e da alma. Dos dias. Da noite.

Atrás de tempos, tempos vêm. E outros tempos hão-de vir. E calados podemos cair.

PS: Nesta noite dormi mal. Sonhei com um cavaleiro, louco e bêbado, que se passeava no meio duma esplanada cheia de gente. Na Praça duma cidade. As crianças assustadas choravam. Os adultos fingiam não ver. Uns conversavam. Outros apenas mexiam no telemóvel.

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