Datas importantes

HIGIENE ÍNTIMA

Eufémia Maria

Faz hoje cinco anos que me deste o primeiro murro. Já tinha havido um pontapé no casamento do teu primo, mas aí estavas charrado e eu pensei que era coisa da droga. Também houve um empurrão contra o carro quando te fui buscar à discoteca, mas aí estavas podre de bêbado, e se te desculpei por teres fornicado a Carla na casa de banho, como não havia de desculpar-te por um empurrão comandado pelo álcool?

Mas faz hoje cinco anos que me deste o primeiro murro e era de manhã, tinhas acabado de acordar, bêbado e drogado não estavas e nem sequer ressacado. Foi um murro sóbrio. E bem direcionado. Tanto que me partiu um dente e me rasgou o lábio de uma ponta à outra. É verdade que foi a primeira vez que eu me esqueci de passar-te a camisa do trabalho a tempo e horas, mas naquela manhã a nossa filha estava a arder de febre e eu atrasei-me para tratar dela. Mas eu compreendi, afinal foste mal habituado, a tua mãe nunca te ensinou a passar a ferro, e tu odeias chegar enrodilhado ao trabalho. Um segurança tem de estar impecável. Claro que compreendi, desculpa. E prometi que não voltaria a acontecer.

E não voltou, por isso já tive mais dificuldade em compreender a estalada que me deste logo passada uma semana, porque a carne não estava tenra e tu estavas esganado com fome e ainda tinhas de ir ao treino do futebol. Sim, eu percebi, mas que culpa é que eu tive? Foi no talho que tu me indicaste, disseste para eu não comprar carne em mais lado nenhum.

Uns quinze dias depois voltaste a bater-me porque te foram dizer que me viram no café a falar com o Júlio. Sim, foi verdade, não desmenti. Ele passou lá e estivemos uns minutos a falar sobre as crianças, o filho dele tinha entrado para a escola. Eu nunca pensei que tivesses ciúmes do teu irmão. Desculpa. Mas também não era preciso chamares-me “grande puta”. Eu sempre te respeitei. Isso magoou-me. E por ter chorado bateste-me novamente, achando que eu tinha era saudades dele e que de certeza já te andava a pôr os cornos há muito tempo. Desculpa novamente, mas como é que querias que eu adivinhasse que não podia falar com o teu irmão?

E depois começaste a bater-me por tudo e por nada, talvez por não fazer aquelas coisas que tu querias na cama, ou por ter engravidado outra vez, ou por comprar comida para a minha mãe, ou por ter gasto dinheiro no vestido para o baptizado da nossa filha, ou por chorar em pranto noites inteiras, ou por querer deixar-te quando me dizias para deixar-te. Desculpa, mais uma vez.

Faz hoje cinco anos que me deste o primeiro murro. E hoje é o primeiro dia da minha vida e foi o último da tua. Agora vou ligar para a polícia, antes que a tua carne comece a cheirar mal, e eu tenha de pedir desculpa por isso.

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