Qualquer coisa de intermédio

 

 

 

 

HIGIENE ÍNTIMA

Eufémia Maria

Cristiana era diferente, sim senhor. A sua diferença nada tinha a ver com a preferência por seitas ameríndias ou um gosto excêntrico no vestir ou uma pancada existencial de correr nua pelas ruas. Apenas tinha a certeza que não gostava de homens, se é que se pode ter a certeza de tal coisa aos dezanove anos. Mas era o que lhe demonstrava a sua experiência pessoal. Não conseguia conversar com os rapazes sem bocejar ou sem sentir vontade de lhes esmagar o crânio com um rolo compressor, não conseguia ficar com a sua vagina humedecida quando os rapazes tentavam excitá-la e encostavam aquela coisa dura e nojenta à sua barriga, não conseguia ter sonhos românticos com rapazes, não conseguia ter saudades dos tipos que juravam adorá-la e lhe escreviam emails patéticos ou deixavam mensagens privadas no facebook a dizer que ela era “muita linda”. E apesar de tudo já eram dezanove anos, de repetidas e frustrantes experiências com os rapazes.

Por isso, Cristiana decidiu que queria ser lésbica, pensando que era uma coisa que se aprendia ou treinava. Começou por devorar a literatura feminista, depois os manifestos, filmes e documentários sobre lésbicas, depois as biografias de autoras e artistas lésbicas, depois as cantoras e bandas lésbicas, depois fotos e vídeos da Internet de lésbicas a fazerem o amor e a fazerem sexo. Passados uns meses de tão abundante interiorização lésbica, Cristiana já pensava como uma lésbica, vestia como uma lésbica, sentava-se no café de perna aberta como uma lésbica, fumava o cigarro como uma lésbica, e decidiu sentir como uma lésbica indo a um bar de lésbicas e deixar-se engatar por uma lésbica. Teresa sentou-se na mesa da Cristiana, riu junto com ela, pagou-lhe uma imperial, comeram tremoços, riram muito de novo, mais imperiais. Ao fim da noite Teresa apertou-lhe a mão com força e convidou-a a ir lá a casa beber uma aguardente caseira do melhor que havia. Cristiana, sentindo-se já plenamente lésbica, quis ir, claro. Teresa pôs a tocar a “Telepatia” da Lara Li, o que pareceu à Cristiana muito kitsch, mas com piada. E dançaram as duas, com dois cálices de aguardente nas mãos. Depois Teresa beijou-a com firmeza e apertou-lhe as nádegas com igual firmeza. Cristiana sentiu um gelo a preencher-lhe a respiração, e uma confusão a toldar-lhe a mente. Teresa conduziu a Cristiana até ao sofá e pressionou-lhe os ombros, fazendo-a sentar-se. Depois desapertou as calças e puxou para baixo uns boxers e encostou a sua púbis farfalhuda e odorífera à cara desprevenida de Cristiana. Cristiana vomitou o casamento de imperial, tremoços e aguardente para cima das pernas peludas de Teresa. E pediu desculpa de forma feminina, o que implicou algum choro, mas depois saiu de forma masculina, o que implicou não dizer nada à Teresa enquanto esta chorava.

A caminho de casa, com a cabeça colada ao vidro traseiro do táxi, Cristiana observou um travesti exuberante e dançante a exibir-se para os carros que abrandavam, e a sua vagina virgem desfraldou-se em galopante desejo, contorcendo-lhe as pernas e ruborizando-lhe o rosto.

Já no quarto, com um bigode desenhado a caneta de feltro e vestida com uma camisa do irmão lá esquecida, Cristiana imagina-se na cama com aquele vistoso travesti e vem-se como uma égua enlouquecida, como um cavalo endiabrado, quase sem dar por isso.

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