Os anúncios de Natal e o mal-estar que provocam

dissidências e resistências

Vera Pereira

Judith Butler, que considero uma das mais lucidas pensadoras do nosso tempo, alerta que quando o género é retratado como um arsenal nuclear apontado à família, se está a operar por meio de formas políticas decorrentes da fantasmagoria. Para conseguirmos expor a falsidade em que se baseiam, temos de conseguir entender como a violência é reproduzida através de uma lógica defensiva impregnada de ódio e paranoia…. Lembrei-me automaticamente dela ao ver circular na internet um texto de um apelidado intelectual português, minado de inverdade e leviandade, para o dizer de forma eufemística.

Os velhos do Restelo que policiam a sexualidade e identidade alheias e tentam impedir a visibilidade das pessoas trans* como se guardassem a caixa de Pandora são os mesmos que se levantaram contra o direito das mulheres ao voto, ao divórcio, à violência doméstica como crime público, ao reconhecimento dos direitos das pessoas com diversidade funcional, de diferentes etnias e orientações sexuais, dos migrantes, dos que não se parecem com eles (e não têm colunas de opinião em jornais nacionais que publicam tudo acefalamente).

À força de tentarem manter os privilégios, é vê-los, não a esgrimir argumentos válidos– que não os têm – ou a debater criticamente, mas a usar o medo da diferença e da discriminação para precisamente tentar legitimar posições discriminatórias e violentas.

Os media continuam a representar um palco privilegiado para os que detêm poder e dinheiro disseminarem opiniões monolíticas, desprovidas de humanismo e respeito, de empatia, de bom senso. Uma espécie de livre passe para a transfobia, para o racismo, para a xenofobia, para o incitamento ao ódio (liberdade de expressão e opinião?? é este o uso que lhe damos?).

No que respeita às pessoas trans*, acredito que o entendimento público esteja a mudar à medida que a sociedade amadurece, que conhecemos e lidamos com pessoas trans* no trabalho, na escola, na família, entre os amigos. À medida que as vemos retratadas como pessoas reais, que assistimos ao sofrimento que a transfobia provoca e ao papel basilar do apoio familiar e comunitário.

A propósito de apoio familiar, e sem querer incitar ao consumo de álcool na quadra festiva, ide ver o anúncio maravilindo do JB que está a causar tanto mal-estar a determinadas pessoas. É puro amor.

 

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