Representações e os caminhos que abrem

dissidências e resistências

Vera Pereira

Na passada semana o palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, foi invadido por uma mulher trans* no final da apresentação da peça Tudo Sobre a Minha Mãe. Em causa estava o que considerou falta de legitimidade do ator em palco, um homem cisgénero, para interpretar uma personagem trans*, havendo atores trans* que poderiam dar vida à personagem. Acredito que há formas menos vexatórias de marcar uma posição ou usar da palavra, sendo respeitoso com o trabalho e o empenho alheios… Mas se há coisa que a história mostra é que há formas de tornar a representação e o teatro mais diversos, mais plurais e representativos.

Na Grécia Antiga os papéis femininos eram interpretados por homens, porque o teatro estava barrado às mulheres, por não eram consideradas cidadãs. Munidos de máscaras, os atores representavam ambos os papéis, só eles detinham a legitimidade de representar. Na corte da rainha Elizabete, conhecida pelo papel central no apoio ao teatro, os personagens negros eram interpretados por homens brancos de cara pintada. O blackface era a forma usada para representar pessoas negras, tal como o famoso Othello, de Shakespeare.

O palco não era um lugar inclusivo, ainda que pretendesse ser representativo. Um caminho de séculos e de reivindicações abriu a possibilidade de que as mulheres se representassem a si próprias, que as pessoas negras se representassem a si próprias.

Parte importante do que aprendi em pequena sobre diversidade e multiculturalidade foi a partir das novelas da Globo, onde percebi os horrores da escravatura e do colonialismo a ver Chica da Silva, ou soube da existência de pessoas intersexo, graças à personagem Bubba, na novela Renascer. Há diferenças assinaláveis entre uma e outra, porque a primeira era uma mulher negra a dar corpo a uma mulher negra, e a segunda uma mulher que não era intersexo a representar uma pessoa com genitália ambígua.

Após a estreia de A Rapariga Dinamarquesa, uma narrativa baseada em factos verídicos de uma das primeiras pessoas trans a realizar uma operação de redesignação sexual, o ator principal assumiu arrependimento por ter aceitado o papel e lamentou não ter antecipado as reações da comunidade trans, que questionaram porque não foi escolhida uma pessoa transgénero para interpretar a personagem. Em 2022 a Disney revelou o trailer da nova versão da Pequena Sereia, e na sequência no final do ano, de vários pontos chegaram relatos e vídeos de crianças negras maravilhadas por verem uma princesa parecida com elas. Por se sentirem representadas.

Cito estes exemplos, como poderia aludir a outros.

São questões muito diferentes, advogam alguns, a cor da pele ou a etnia é imediatamente visível, a diversidade das características sexuais não o é. É verdade que todas estas produções permitiram contar uma história, trazer para primeiro plano, dar a conhecer, é certo… e a arte da representação é isso mesmo, alguém num palco ou frente a uma câmara a interpretar uma pessoa diferente, a retratar uma história que não é a sua. Mas a propósito, pessoas trans* podem representar personagens cisgénero, o argumento é válido para ambos os lados.

Lou Sullivan, ativista trans*, revelou no diário que manteve durante décadas, que em criança queria ser uma pessoa que não sabia ser, porque não tinha nenhum modelo, ninguém que o inspirasse ou simplesmente mostrasse que outras realidades e caminhos eram possíveis. E isto é tão ilustrativo da importância de pessoas historicamente discriminadas se verem representadas em narrativas que extrapolam circuitos não normativos, espaços queer ou comunidades racializadas e marginalizadas.

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