Leopoldina Pina de Almeida

IMG_1611Leopoldina Pina de Almeida gosta de ser mulher. Gosta muito de ser mãe da Leonor. E gosta de ser tia da Carolina, que é de Coimbra, de ser madrinha da Dalpha, que é moçambicana e da Eva que é de etnia cigana. E gosta de se pôr a imaginar as vidas tão diversas e presentes de pequenas/grandes tragédias das mulheres que a antecederam na sua família, de quase só mulheres. Gosta de gat@s. Do Gato das Botas e da Madre Pérola. Gosta de ser professora dos seus e das suas alun@s. Gosta principalmente daquel@s que poucos gostam. Gosta de muitas cores. Roxo. Yellow&Blue. Mesmo do verde, quando parece azul. E de misturar todas as cores. Gosta de batons e de frutos vermelhos e suculentos nos lábios e de se borratar. Gosta de dançar e de nadar. Gosta de mergulhar. Gosta de dormir ao relento e de acordar cedo. Gosta de sentir o sol na pele. Gosta do verão, mas principalmente da primavera e do outono. Gosta das mudanças e de esticar as fronteiras. Não gosta de sentir o corpo frio. Gosta de beber chá e de aquecer as suas mãos pequenas numa caneca larga. Gosta de se embrulhar em cachecóis macios, casacões compridos e gorros feitos à mão. Gosta de calças largas, de camisolas estreitas e de vestidos longos. Gosta de anéis grandes e de brincos antigos e pequenos. Não gosta de pulseiras, nem de nada que a faça sentir-se agarrada. Só de mãos dadas e de abraços apertados. Gosta de estar sozinha, gosta do silêncio. E gosta de falar, mesmo ao telemóvel. Gosta das vozes densas e dos ambientes sombrios das divas já desaparecidas, às vezes a fazerem ouvir-se aos gritos no carro. Não gosta de televisões, nem de redes sociais, nem de “gostos”, nem que a sigam. Gosta de conhecer pessoas. Gosta de estar com pessoas. Pessoas que são pessoas. Gosta dos muitos Pessoas e de muitos outr@s escritor@s e de devorar e confundir livros. E gosta de inventar estórias e filmes. Não gosta que todos gostem dela. Gosta de ter 49 anos. Não gosta de comer animais. Gosta de viver no Alentejo. Mas não gosta nada de ver os campos geometricamente plantados com olival intensivo e superintensivo. E gosta de muitos outros sítios. Gosta de passear com os pés na terra e com a cabeça no ar. Não gosta de saltos altos. Gosta de atacadores. Gosta de arejar. Gosta de abrir as janelas todas. Gosta de limpezas de verão. Gosta de ser desafiada e de ir. Gosta de se perder. Gosta de ficar mais bonita com o perder. Por vezes gosta de olhar e outras vezes gosta de ver. Gosta de ouvir. Gosta de confiar. Gosta de se envolver. Gosta de se emocionar. Com minorias e com multidões. Gosta de gostar do que faz e ainda gosta mais de gostar das pessoas de que gosta. Gosta de sorrir grata para os (des)amores do passado, abraçar espantada os momentos presentes e despertar curiosa com o futuro. Gosta de gostar.